Conta-se que Leonardo da Vinci, andando um dia pela rua, numa cidade da Itália, viu uma criança tão linda que desejou reproduzir-lhe o rosto numa de suas telas. Chamou a criança e deteve-se longo tempo procurando reter-lhe os traços com seu pincel genial. Rosada, loura, de límpidos olhos azuis, o menino tinha mesmo um rosto de anjo. Terminado o quadro o artista não quis vendê-lo; pendurou-o na parede de seu atelier. Quando se sentia deprimido, desanimado, descrente da vida, Leonardo erguia os olhos para aquele quaseo, fitava aqueles olhos azuis que lhe sorriam da parede e essa rápida visão bastava para devolver-lhe o ânimo, a coragem, a alegria. Passaram os anos. Numa dessas fantasias próprias de artista Leonardo resolveu pintar um outro rosto, mas algo hediondo e mau, uma figura que provocasse horror e espanto, revolta e náusea. Perambulou por lugares diversos e, finalmente, concluiu que numa prisão, talvez, pudesse encontrar o desejado modelo. Falou com o diretor da prisão, expôs-lhe seu desejo, e dentro em pouco, pôde ir de cela em cela, contemplando os facínoras diversos que ali estavam segregados. Diante de um deles o pintor deteve-se: tinha encontrado o modelo. Era um rosto indescritível na sua fealdade. Ali estava fielmente retratada uma vida de vícios e de crimes. Só o pincel de um artista poderia mesmo reproduzir com precisão tanto horror numa face humana. O artista começou a pintar aquele rosto quando, após algum tempo, o criminoso lhe dirigiu a palavra: "Lembro-me que há muitos anos um outro pintor já me tomou por modelo. Acho que era o senhor mesmo. Eu era pequeno nessa ocasião, mas me lembro bem". Foi assim que Leonardo da Vinci descobriu que o seu modelo de agora, esse criminoso de face devastada pela impiedade, tinha sido no passado aquela criança rosada e linda, cujo rostinho angelical ainda pendia na parede de seu atelier. Tão triste ficou o artista que nem quis mais completar sua nova obra. Retirou-se amargurado, meditando sombriamente no que a vida pode fazer de um ser humano, nas transformações que pode operar. Não sabemos se identificou corretamente a causa de todo aquele mal. Homem do Renascimento talvez não compreendesse ou não quisesse compreender os efeitos do pecado numa vida humana.
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